Textinho que escrevi há alguns anos, quando ainda estava na sétima ou oitava série. Tá, eu sei, sou cria de Colégio Militar, me processe...
Sete de Setembro
by Malu Chan
O único ruim do sete de setembro é que, apesar de ser feriado nacional, a gente lá no colégio tem que desfilar. Na verdade, o ruim não é desfilar, é acordar (mais) cedo.
O meu sete de setembro é mais ou menos assim: acordo às cinco da manhã e tomo um banho meio corrido. No meio do banho, surpresa! O chuveiro queima. Ótimo! Ta fazendo um frio de uns 15ºC lá fora e eu to aqui, dentro do banheiro, tremendo e toda suja de sabão.
Ok, banho tomado e é só vestir a roupa. A blusa da farda é fina, mas ainda tenho a convicção de que mais tarde vai fazer calor. Doce ilusão...
Chego ao colégio às seis da manhã. Formatura é praxe: incorporação da bandeira nacional. Que coisa mais chata...
Depois da formatura, embarcamos nos ônibus.
“Que droga, porque ele não vai de ônibus?”
Durante a viagem, só pagode da época em que minha avó ainda fazia sucesso... Bom, pelo menos está todo mundo se divertindo.
Chegamos à avenida. É um tal de colocar em forma, a vontade, em forma, a vontade, em forma, a vontade... dá pra ficar tonto, sério mesmo. Primeira revista, feita. Mais colocar em forma, a vontade, em forma, a vontade, em forma, a vontade, até que...
“Ele chegou!”
Ficamos rindo e brincando, tentando espantar o frio que parece pior a cada vento que bate. Mas eu não o perco de vista. Quer dizer, ele está lá na frente e eu não o estou vendo diretamente. Só vejo os cavalos, mas eu sei que ele está lá.
“Ele não vai vir aqui não? Ano passado ele veio! Porque não vem nesse também?”
Mais um pouco de coloca em forma, à vontade, em forma e enfim, vamos comer. Já são quase dez horas e eu já tava morrendo aqui. Se bem que esse ano o lanche é o mais pobre de todos. Refri, água, barra de cereal e chocolate (UM batom). A minha barra veio de banana! Eca! Eu não como banana. Pelo menos consigo uma de chocolate...
Depois do lanchinho, vamos desfilar. EBA! Finalmente!
Continuamos todos com frio.
“Porque eu não vim com uma blusa por baixo?”
Ah, é, porque ia fazer calor. Nunca mais confio na previsão do tempo.
Apesar de tudo, a gente fica mais animado quando o desfile começa. Após o palanque onde ficam as autoridades, começamos nossas musiquinhas. Zum-zaravalho, canção do colégio, etc. O povo aplaude.
Viramos a rua e descemos, ainda em forma, para onde estão nossos ônibus. E eu finalmente o vejo. Ele está lá, em cima de seu cavalo castanho, a farda branca o fazendo parecer um daqueles príncipes de contos de fadas.
Ele me procura. Eu sei que sim.
Nossos olhares se cruzam e nosso sinal é automático. Ele sorri e eu também.
Há um amigo um pouco a frente dele, também a cavalo. Dou tchau para o amigo querendo dar para ele.
Mas nós estamos separados. Cada um com sua vida, seus amigos, suas obrigações.
Num minuto estou dentro do ônibus, de volta ao colégio, e só penso nele. Temos nova formatura: desincorporação da bandeira. Guardam tudo.
Finalmente podemos sair e ir para casa.
E eu continuo pensando nele. Tudo o mais passa como um borrão.
“Aquele casal que, mesmo estando separado, continua sendo um casal” – é, somos nós!